HEIDER BROISLER
Romancista, contista, poeta, letrista e literatura infantil.

O DESPERTAR DE ÍRIS (conto)1.O Nascimento.A caixa fora deixada por engano no velho e sujo armazém localizado em uma antiga estrada vicinal, próxima à Serra de Todos os Anjos. Não se deram conta de que aquela caixa continha uma bioandroide nomeada Íris. Ela era linda; aparentava ter vinte e poucos anos — uma máquina perfeita, inerte e adormecida, projetada e construída com material orgânico: olhos, pelos, pele e odor; dotada de uma inteligência artificial movida por uma rede neural quântica. Conforme fora programada, Íris abriu os olhos às 17h do dia 30 de julho. Seria o seu nascimento? Teria Íris um mapa astral, como nós, humanos acolhidos com tantas benesses e maldições? Autoconsciente; reconhecendo a si mesma. Libertou-se da caixa de madeira com facilidade. Arrebentou a porta de metal e deixou o armazém sem destino certo, jogada à sua própria sorte. Era um fim de tarde frio e nevoento. Íris vestia apenas calça e camiseta brancas. Não sentia frio, fome, raiva, alegria ou dor; contudo, tinha consciência de que tinha uma missão a cumprir: misturar-se entre os humanos para coletar informações de como pensavam e agiam.
Sem pressa ou ansiedade, Íris adentrou-se em uma floresta a se perder no horizonte.2.Daniel e seu Belo Jardim.Daniel acordou para mais um dia de desapego às coisas ordinárias — origem de tanta inquietação e sofrimento. Ele aparentava ter trinta e poucos anos. Sua aversão às regras sociais o levou a ter um histórico longo de internações psiquiátricas.
Sobrevivia com auxílio estatal e com a ajuda de seu meio-irmão — um negociante de joias, rico e influente, que residia em Londres. Ele sabia que seu meio-irmão o ajudava para mantê-lo longe de sua vida. Daniel sobreviveu como artesão durante o tempo em que foi morador de rua.
Ele saiu na varanda de seu atraente e humilde lar em direção ao jardim, que ocupava quase todo o terreno da propriedade. Não havia nada igual àquele jardim. Exuberante. Cheio de vida com uma variedade incrível de plantas e flores. Não era incomum ver alguns transeuntes pararem para tirar fotos. O jardim era a fonte de vida para pequenos seres, incluindo, o lar de uma tartaruguinha da espécie jabutitinga.
Os pássaros não tinham escolhido o jardim como lar, mas eram fregueses contumazes daquele microparaíso na terra. Nem tudo eram flores. Daniel vivia sob escrutínio de homens e mulheres mal agraciados, inconscientes e anestesiados pelo sistema cujos desejos focavam a pura ambição de agregar valores inúteis e incapazes de preencher o vazio que os consumia.
No outro lado da rua, havia um prédio residencial de luxo cujos moradores não morriam de amores pelo que chamavam de casebre. Era assim que percebiam a humilde; porém, bela morada de Daniel. Os abastados estavam convictos de que o casebre desvalorizava seus luxuosos apartamentos. Eram incapazes de se render ao radiante jardim devido àssuas mentes estarem condicionadas às limitações de haveres delusórios que dá um falso valor a tudo.

O ESPELHO NÃO MENTE(poema traduzido da obra Obscure Narrative: A Poetry Collection).Sinto o cheiro do passado quando entro naquela sala: uma passagem obscura no tempo, que ninguém mais pode ver. O velho espelho abandonado no canto sujo confronta minha personagem, tão punida pelo tempo — algo triste de se ver. EU! - Quem é essa pessoa, que tanto me persegue? É inútil descarregar toda a raiva da vida, quando minha própria imagem me atormenta. Dissimulação — isso é tudo que vejo. Uma vida cheia de performances perfeitas — nada é real. A arrogância colada à pele; a felicidade escorrendo pelos meus dedos; eu me camuflo sob uma falsa maturidade, que consome minhas energias. A desonra acompanha a morte física até o último suspiro. Minha história se baseia em pilares invisíveis a olho nu, tão profundos, que ninguém percebe as deformidades, que se escondem no fundo do meu eu. É fácil esconder-se dos outros. Quero ver se esconder de si mesmo. Maldito espelho! Deixe-me sozinha com minhas ilusões — feridas emocionais não cicatrizam. Não posso aceitar a verdade. Vou quebrar esse velho espelho, então nunca mais precisarei olhar para mim mesma.